Neon Marginal é um projeto fotográfico criado por Daniel Bernardinelli onde neons publicitários da cidade de São Paulo são clicados no intuito de mostrar uma visão diferenciada da cidade. O My Cool bateu um papo com o fotógrafo pra entender melhor quais foram as suas inspirações e conhecer um pouco mais do seu background e projetos futuros.
My Cool: então, me fala um pouco sobre como surgiu a ideia pro Neon Marginal?
Daniel: A ideia foi surgindo aos poucos, por influências, por referências, mas principalmente por conta da lei cidade limpa em São Paulo.
mycool: Porque? Os neons te chamaram mais atenção?
Daniel: É, o Tony de Marco fez um trabalho fotografando os outdoors vazios, aí passei a fotografar os neons, e os mais legais e maiores estavam sendo removidos por conta dalei, e os que mais me interessavam eram os decadentes, os diferentes, os enormes… Então desses registros fotográficos surgiu a ideia de levar isso adiante como projeto. Passei a anotar onde os neons estavam, fiz uma espécie de mapa ou roteiro e quando tô na rua, se estou com a camera já fotografo quando descubro um novo, ou anoto pra voltar e clicar depois.
mycool: Legal! E foi fácil de seguir o roteiro?
Daniel: mais ou menos… É bem complicado, na verdade é um processo em andamento; eu digo que o projeto ainda tá rolando porque eu continuo fotografando, e não tem muita ajuda. Um amigo ou outro me diz onde viu um novo, eu anoto o endereço e vou quando posso. E tem o lance de ser arriscado também porque é à noite, e às vezes sozinho.


mycool: Imagino! Que câmera você usa?
Daniel: Eu comecei com uma Canon Powershot S5is que é uma câmera amadora com mais recursos. Agora uso uma Canon XTI com uma lente zoom 75-300, que é maior e chama mais atenção. E cada foto tem uma história, Barbara. O legal também é isso. Quase apanhei em Santo André quando fui fotografar um bingo, os ambulantes acharam que eu era fiscal da prefeitura, tomei uma intimada. Quando vou fazer os neons de puteiros, faço escondido, depois chego no segurança e peço pra fotografar mais de perto, sem dizer que já tinha fotografado.
mycool: Nossa! O que eles fizeram?
Daniel: Os ambulantes perguntaram quem eu era, pra onde estava fotografando, queriam ver as fotos pra ver se tinha algum deles na foto. Me rodearam, uns marmanjos, foi tenso!
mycool: E o que que aconteceu de mais bizarro no projeto até agora?
Daniel: Acho que esse foi um episódio… Outro bizarro foi fotografar a rua Augusta dos jardins ao centro, só eu e um amigo, tentando fazer escondido. Não sei se você sabe mas os seguranças dos puteiros são amigos da polícia, e se eles chamam a polícia sou eu que me dou mal, porque a polícia entra de graça nessas casas, entendeu? Então tinha que me esconder dos seguranças e dos malandros que perambulavam por lá. Bizarro também é convencer esses seguranças, conversar com eles com a câmera na mão, pedir pra fotografar e fazer os caras entenderem que é um trabalho de arte e tal; eles acham que é pro jornal, que é denúncia, tem medo. Porque provavelmente vivem “devendo”, ou você já ouviu alguma matéria falando bem de puteiro? Às vezes os próprios comerciantes não entendem, aí eu falo com o gerente ou o dono e geralmente rola, mas alguns não deixam não.
mycool: Tem que ter puta cara de pau então?
Daniel: Tem, total, e rola o maior chaveco. Às vezes se a marca é grande eu pego o contato do marketing pra ligar, tipo tô pra falar na Cavaleira e na Guaraná Brasil.
mycool: Massa! E você disse que a ideia é levar o projeto pra outras cidades no futuro?
Daniel: Sim, a ideia inicial era montar um livro de cada cidade, ainda não descartei essa possobilidade, quero fazer por exemplo um Neon Marginal Buenos Aires, Neon Marginal Honk Kong, Neon Marginal Las Vegas. Espero que eu consiga! A ideia é não deixar o neon morrer!
mycool: Seria ótimo hein! E não tem mais ninguém fazendo isso?
Daniel: no Brasil não. No flickr você encontra outros grupos de gringos que registram em suas cidades, mas não com o mesmo peso de expor as fotos, com a pretenção de editar livros e seguir pra outras cidades. Eu pesquisei bastante pra ver se alguém já tinha feito isso, procurei pessoas, livros, etc e não encontrei nada além desses grupos no flickr.
mycool: E porque não fazer em mais cidades brasileiras também?
Daniel: eu faço quando posso por que eu trabalho com produção de vídeo e de evento corporativo, às vezes viajo, acho e clico, mas às vezes falta tempo. Tenho no álbum uns neons de Floripa, do ABC, mas a prioridade por enquanto é SP por que é a cara da cidade isso, é a cara de São Paulo, da noite paulista.
Acho que tem a ver com street art, mas eu prefiro não rotular.
mycool: Os neons você diz?
Daniel: Sim, no sentido de fazer parte da cidade, da cara da cidade. Não só os neons, mas olhar os neons de outra maneira, enxergar a cidade mais colorida. Os neons por enquanto não como arte, mas a tecnologia a favor da arte, a publicidade como forma artística por conta das cores, curvas, silhuetas e das diversas possibilidades. Esse é o comparativo, o neon traz muita possibilidade de criação, então vamos olhar a cidade de uma maneira possível.
mycool: E você sempre fotografou?
Daniel: Não. Eu digo que não sou artista nem fotógrafo, nunca fiz curso de fotografia, comprei a câmera anterior e fui aprendendo, fui treinando o olhar, e ainda continuo. Eu acredito que a técnica é importantíssima, mas não adianta muito ter técnica e não ter olhar. O olhar você desenvolve (ou nasce com ele) e a técnica a gente aprende. Gosto do Tomas Farkas quando ele dizia: “sou meio marginal pra essas coisas de cinema e fotografia, não sou amador e nem profissional”, e isso me inspirou muito, inclusive pro nome, neon marginal. Eu pensei: eu também não sou artista mas vivo respirando arte, então estou sempre à beira disso, à margem.
mycool: Nossa super concordo!
Daniel: Nao é só o marginal de fora da lei, é o marginal de margear a arte, a fotografia.
mycool: E o que que te inspira geralmente?
Daniel: Putz, tanta coisa. Eu acho que a cidade me inspira, não sei explicar como, mas esse lance da metrópole, das pessoas, de como o dia passa em São Paulo. Me inspiram os grafittis, os malabares, as poesias de concreto, o hip hop, a música, enfim, toda manifestação artística. Sabe aquela história do jornalista que é um músico frustrado e não consegue viver longe de música? Então, eu acho que é mais ou menos por aí, exceto pela frustração!!
mycool: Que tipo de música você curte?
Daniel: Gosto muito, muito, muito das bandas de Pernambuco: Mombojó, Nação, Cordel, Otto, China. E de vez em quando ouço um hip hop e até um rap, e prefiro as músicas nacionais, não sei por que mas prefiro. Sou um pouco nacionalista, gosto das coisas do meu país, do meu povo. Claro, não me fecho nisso, não sou o Ariano Suassuna, mas gosto do Brasil!
mycool: Haha, ótimo! O que você acha que falta então pro Brasil dar certo?
Daniel: Pro Brasil dar certo primeiro é que cada um deve deixar de pensar no próprio umbigo, devemos ser mais flexíveis, e estudar, ter mais cultura, gostar e valorizar as coisas daqui, cagar pra esse papo de american lifestyle, tanta coisa maravilhosa aqui. Se a gente valorizasse e defendesse, se a gente se unisse mais, acho que seria ao menos um pouco melhor, mais agradável. Eu acho que o Brasil é possível, é viável, mas o povo precisa querer, abrir os olhos, erguer a cabeça ao invés de ficar de cabeça baixa olhando pro próprio umbigo e reclamando da vida…
mycool: É verdade! E qual foi o último filme que você viu?
Daniel: No cinema foi se não me engano Valsa com Bashir, mas vejo muito dvd em casa, amo os filmes nacionais!! Comecei a cursar Rádio e TV, tive que trancar e fiz um curso de produção cinematográfica; os últimos brasileiros que vi foram: “Noel, o poeta da Vila”, “Linha de Passe”e “Meu nome não é Johnny”
mycool: Ai nao vi Johnny ainda, que tal?
Daniel: Sensacional! O enredo, o roteiro adaptado, a atuação do Selton Melo, a direção mandou bem (se o filme é nacional eu faço questão de ver os extras!!). E eu fiz um evento que o João Guilherme era palestrante, conheci o cara e só depois vi o filme. Pra mim foi mais emocionante. Agora queria ver o do Jean Charles que também é com o Selton. Se puder, veja também “O cheiro do Ralo”.
mycool: Eu amo cheiro do ralo! Que ótimo Daniel! Tem mais alguma coisa que você queira dizer?
Daniel: Bom, acho que basicamente é isso. Eu fiz uma exposição no Museu de Santo André e uma no Jazz nos Fundos em SP.
mycool: Maravilha! Sucesso pra você!
Todas as fotografias do Neon Marginal estão no
flickr do Daniel.
Alô cool nerds! devidamente linkados no Retalhos!
see you soon.
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