Salvadores de Alma
O primeiro contato que tive com a música dos Soulsavers foi através dum show. Eles são uma dupla, depois descobri, mas em cima daquele palco tinha uma dúzia de pessoas – inclusive Mark Lanegan, nos vocais. E atordoado e estupefato que saí, na hora pensei que aquele som só poderia levar a duas situações: conversão religiosa ou drogas pesadas. E o fato é que não tinha igreja alguma por perto. Algum par de anos após – e de incansavelmente ouvir o disco It’s Not How Far You Fall, It’s the Way You Land -, a dupla de dezenas está de volta com Broken, o terceiro deles. De novo Mark Lanegan canta a maioria das faixas, e além, dessa vez aparecem outras vozes bem conhecidas. Mike Patton, Jason Pierce e Gibby Haynes, talvez numa tentativa de reunir no mesmo álbum a maior quantidade de toxicômano por sangue. A estética permanece a mesma.
Soulsavers é space-rock de viagem extrema, que justapõe todo o tempo elementos eletrônicos com o que há de mais rústico do folk e gospel. Porém, o eletrônico está bem mais de canto, com guitarras soando mais altas, uma aproximação do mostrado ao vivo. O clima de Broken é muito mais melancólico do que de fato sombrio, como o anterior – a imagem era de alguém se atirando no poço, cavando um buraco e se enterrando vivo. Talvez você pense que esse era o maior mérito da banda, e de fato, agora eles não cutucam tanto a ferida com gasolina – menos pessoas se matarão ouvindo, em resumo. Agora do ponto de vista dos arranjos e melodias, a grandiloqüência impressiona. A dupla de dezenas, numa música como Shadows Fall, apresenta de quase tudo: violão acústico, guitarras, harmônica, naipe de cordas, distorções, vocais em coro, pense em Tender, do Blur, com todo mundo chapado de ácido tocando no meio da chuva. Nada parece desmedido demais, desde a hipnotizante faixa instrumental de abertura (você simplesmente é obrigado a ouvir todo o resto depois dela). Lanegan soa com timbre cada vez mais carregado de rouquidão (um dia ele vira o Tom Waits), substancial pra te fazer TREMER AS PERNINHAS ao cantar algo como “when you have no none, no one can hurt you”, na PETRIFICANTE versão de You Will Miss Me When I Burn, de Will Oldham (que, aliás, retribui a gentileza ao cantar Sunrise, no necessário single que não entrou no álbum). Os Soulsavers com esse álbum, belíssimo, no final ainda me remetem a apenas duas situações: conversão religiosa ou drogas pesadas. E o fato é que, desta vez, tenho uma igreja a apenas duas quadras de casa.













Definitivamente, o timbre do Lenegan é algo absurdo e cada vez melhor. Desdos Árvores Gritantes lá. E esse disco é bem bom mesmo. Puta que pariu.
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