Home » cinema

500 days of magic, of distance, of tenderness, of Summer

5 Novembro 2009 por Leandro Vignoli 1,182 views 2 Comments

Poderia resumir 500 (Days Of Summer) desta forma e você que decidisse se é elogio ou avacalhação: filme de cultura pop sobre relacionamentos que invariavelmente falham pela incompreensão de uma das partes sobre ele e recheado de enxertos do cotidiano. Não é mesmo uma história original, e longe de ser algo que você de fato nunca viu. Toda compreensão, inclusive, passa pelo teaser que acerta na mosca. “Boy meets girl. Boy falls in Love. Girl doesn’t”. É sobre isso, e só isso, que se trata o filme. Agora, o que não se pode simplificar, e muito menos menosprezar, é a qualidade da execução. O roteiro de 500, desenvolvido de maneira descronológica e por isso pedinte de dose extra de atenção, é envolvente do início ao fim e realizado com extrema eficácia (ninguém pode culpar esse filme de não ter chegado aonde queria. Ele chega, e com sobras).

500_days_of_summer01

Desde o início da relação, a menina da questão diz que tava só curtindo. O menino da questão não leva a sério, quer algo mais. De quem é exatamente a culpa nisso? O fato é que caso você seja uma pessoa que se envolva na trama a ponto de se identificar com personagens, a única coisa que vai sentir pelo moleque é pena, por ser tão bobão. Talvez por coincidência (provável que não), a química do casal funciona muito: Joseph Gordon-Levitt tem a aura boboca de filmes como Dez Coisas Que Eu Odeio Em Você e eternamente conduzirá a pecha de “Heath Ledger genérico”; enquanto Zooey Deschanel tem mesmo o jeito de menina presunçosinha blasé que canta e toca indie-rock-ui-ui. Todo o sentido uma relação entre os dois do jeito que foi contada.

E ela foi contada como um rio de referências pop. O primeiro contato entre eles é através duma música dos Smiths. O primeiro encontro após um karaokê onde ele canta Pixies. Na primeira DR eles citam Sid & Nancy. Terminam após verem A Primeira Noite de Um Homem. O que realmente diverte e funciona, como pano de fundo a todas as frustrações que relacionamentos provocam e machucam (nada novo de novo, mas nem é preciso tanta sorte para pelo menos uma das situações filmadas ter sido vivida por você mesmo: e quanto mais próximo de você, óbvio, mais chance de nó na goela). Doses de humor negro e fracasso profissional também são ingredientes bem fortes. Agora, se você quiser ir numa vibe mais simplificada (ou no caso, não entender porra nenhuma), 500 prova por A + B que toda mulher é uma baita cu-de-cachorro.

500daysofsummerhero2_806x453

Na forma estética, o diretor Marc Webb meteu a mão. Ele vem dos videoclipes (só esse ano, dirigiu dois do Green Day e um do Weezer) e usa e abusa de recursos. A cronologia é marcada através de cada um desses 500 dias de relação. Uma das cenas mais bonitas do ano está numa divisão de tela, uma mostrando expectativas do personagem em relação ao que poderia acontecer, a outra com a realidade, em si. Doutro lado, uma das mais descabidas surge numa dança coreografada no meio da rua, em meio a vários passantes (a cena é bonita na verdade, mas meio que ‘ok, cara, tu quer fazer um musical, uma comédia romântica, imitar o Gondry? Te decide aí, brou’.) Agora ninguém pode culpar ele de não ter tentado. Na maior parte, tentou e acertou. “Filmes de cultura pop sobre relacionamentos que invariavelmente falham pela incompreensão de uma das partes sobre ele e recheado de enxertos do cotidiano” realmente tem aos borbotões. E 500 Days of Summer, bote fé, é dos mais bem feitos.

ps: no Brasil a tradução virou 500 Dias Com Ela, o que terrivelmente quebra uma espécie de IRONIA DO DESTINO COMO MORAL DA HISTÓRIA PLANEJADA (o nome da personagem principal, Summer, é um trocadilho com a estação do ano, e o fato é que não english-speakers vão ficar total boiando na jogada final, o que é lamentável).

1 Star2 Stars3 Stars4 Stars5 Stars (2 votes, average: 4.50 out of 5)
Loading ... Loading ...

2 Comments »

  • arlen said:

    Grande Vignoli muito bom este filme ainda, teu texto saiu ainda melhor.

  • mycool – cultura, comportamento e coolness » Blog Archive » Zooey, ah, Zooey… said:

    [...] de março, é da musica In The Sun. Num clima totalmente colegial, Zooey está mais linda do que em 500 Days Of Summer. No clipe, ela em nada lembra a tímida Summer cantando Sugar Town e dançando suavemente. Agora, [...]

Comentaí!

Comente ou trackback Você também pode assinar esse comentário subscribe to these comments via RSS.