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Martyrs e o dilema do horror extremo

13 Julho 2010 por Leandro Souza 374 views No Comment

cinema-martyrsGostar de filmes de horror gore (ou extremo) é sempre um assunto complicado. Claro que o cara pode se sentir um sádico da porra ao admitir ter um gosto por ver sangue e vísceras em abundância na tela. Mesmo assim, é preciso ter um critério, saber reconhecer os filmes que sabem usar esta violência excessiva e ainda assim conter um valor cinematográfico junto ali. Até porque se não souber, tu pode te afundar em produções semi-snuff japonesas e daí danificar a tua mente pra sempre. Melhor não fazer isso, né rapeize?

Com a vinda de filmes como “O Albergue” e “Jogos Mortais”, o cinemão americano começou a caminhar uma linha fina entre o bom cinema e a pura exploração da violência em celulóide. Por algum tempo (o primeiro “Albergue” e os, vai lá, TRÊS primeiros “Jogos Mortais”) a fórmula até deu certo, resultando nuns filmes bem bacanas pra quem gosta duma sangreira. Claro que teve muita gente que se revoltou, começou a repudiar os que ficaram conhecidos como “torture porn movies”, mas não dá nada. Mesmo com toda aquela barbárie, estes longas continham uma certa carga temática (“O Albergue”) ou roteiros (“Jogos Mortais”), que justificavam as suas existências. Depois disso, bem, daí o bagulho começou a degringolar geral.

O que poucos além dos amantes do cinema de horror sabem, é que a terra que melhor conseguiu aliar violência gráfica extrema com roteiros realmente inteligentes, foi a França. Nos últimos anos, o país do croissant enfileirou ano após ano obras seminais do terror moderno: “Haute Tension”, de Alexandre Aja, em 2004; “Ils”, de Xavier Palud, em 2006; “Frontiére(s)”, de Xavier Gens, e “A L’Interieur”, de Julien Maury, em 2007. Todos eles, FILMAÇOS ultraviolentos com – o principal – uma tensão constante e quase insuportável, que partia do talento de diretores que sacam que não adianta ter carnificina sem um roteiro bem feito, e sobretudo, um domínio de ambientação – QUE É TUDO num filme de terror. Além disso, os diretores se lembraram de algo fundamental: de que o cinema de horror extremo se criou de uma imensa raiva e insatisfação com o mundo, lá nos EUA, nos anos 70. Este caos cinematográfico é principalmente um comentário social gritante sobre algo que há de muito errado com nós mesmos.

Agora, ninguém estava preparado para “Martyrs”. Eu, pelo menos não estava. O prólogo do filme se apresenta como um simples thriller de mistério e vingança, sobre uma garota raptada quando criança e submetida a torturas que sabe-se lá quais são. Nada é revelado assim de largada. Ok, até aí tudo normal. Mas daí é que tu te engana e esquece que o diretor Pascal Laugier é um tremendo dum filho da puta. Quando o filme engata a segunda, tu já está rendido, nocauteado e praticamente imobilizado pelas imagens implacáveis apresentadas em seu 1º ato. E isso é só a cabecinha. Com uma reviravolta fodástica, a película vira um monstro, um espetáculo de rara originalidade e, sobretudo, CORAGEM do diretor Laugier. Melhor não contar mais nada.

Para todos os detratores do horror extremo, recomendo fortemente que assistam (baixem, se necessário) este filme. Não para uma possível mudança de idéia, muito menos para que reforcem este ódio. Mas acredito fortemente que Laugier, em sua distorcida porém genial visão, conseguiu transformar o que poderia ser um gorefest sem limites em uma obra de arte, que move o espectador emocionalmente em níveis poucas vezes visto. É um filme que te deixa tenso, te deixa triste, te deixa exausto, te deixa PARALISADO. É um filme que mexe com suas crenças mais profundas sobre o ser humano, religião, etc, etc, etc. É um filme que surpreende ao transcender o mero rótulo do horror. É realmente uma experiência inesquecível.

Já estava há mais de um ano querendo escrever sobre este longa, e como nenhuma produtora ainda teve a DECÊNCIA de distribuí-lo por aqui, e poucas pessoas chegaram a comentar esta pequena obra-prima, não me importo em fazer isso só agora. Afinal, chegar atrasado numa festa que a maioria dos convidados nem apareceram ainda não é chegar atrasado, correto? Enfim, sempre se pode esperar pelo remake amaciado americano, que parece que vai ser com a *humpf* Kristen Stewart. Ai meu céu.

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