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Who The Fuck Is PJ Harvey?

23 fevereiro 2011 por 884 views 5 Comments

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Se eu tivesse que deixar dois conselhos para a humanidade, seriam: 1) não vá ao Carrefour numa tarde de sábado. O tempo de espera na fila do caixa rápido pode chegar a 50 minutos; 2) ouçam – e leiam – com calma Let England Shake, o último da PJ Harvey. Taí um álbum que merece ser apreciado da primeira até a penúltima música – porque a última é meio chata.

Às vezes complicada, sempre perfeitinha. PJ Harvey pode até parecer uma mulher de fases, mas não: ela segue coerente no 8º álbum de sua discografia, sempre firme no objetivo de descobrir quem é a própria PJ. O que muda de um trabalho pro outro são os ritmos, o humor, e os lugares onde ela se procura: se não encontrou nas próprias entranhas, expostas em White Chalk (2007), nem nas agruras da vida a dois berradas em A Man A Woman Walked By (2009), agora ela estende o processo de auto-análise a todo um país.

England’s dancing days are done.
Another day, Bobby, for you to come home
& tell me indifference won
(Let England Shake)

Na primeira ouvida, o oitavo da PJ pode até lembrar as melodias fáceis e flutuantes de Stories from the City, Stories from the Sea (2000) – aquele com The Mess We’re In, parceria com Thom Yorke merecedora de rios de lágrimas. Na segunda audição, porém, se percebe que o buraco de Let England Shake é bem mais embaixo: a crueldade das letras quebra a impressão faceira deixada na primeira ouvida, e o teor político se sobrepõe ao instrumental pop de John Parish, fiel escudeiro de PJ desde os anos 80.

I’ve seen and done things I want to forget;
I’ve seen soldiers fall like lumps of meat,
Blown and shot out beyond belief.
Arms and legs were in the trees.

(The Words That Maketh Murder)

Mas é lá pela 17ª ouvida que vem o vício e a noção do verdadeiro valor do que se ouve: não é só mais um punhado de composições politizadas (ainda é moda?) escritas por quem acha que o inferno são os outros. Let England Shake esmiuça a PJ Harvey herdeira do pós imperialismo, a que mandou tropas para a guerra, a que enxerga o fruto do próprio território como uma “criança órfã e deformada”. Esmiuça também a PJ que, mesmo assim, declara amor incondicional a sua terra. Let England Shake é intenso, cruel, pesado, lindo.

Enquanto o império desaba, Polly Jean constrói com lucidez sua auto-imagem e encaixa uma peça fundamental na boneca russa que é a sua discografia. God bless you, PJ.

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